Novos Aforismos

Pela natureza do que escreve, um verdadeiro escritor já tem poucos amigos. Se publica, menos ainda.


Se tudo já foi dito e repetido, esse tudo é tão vasto que é impossível de ler. Leio, portanto, o que me está mais próximo – Nietzsche, ao invés do Eclesiastes – porque parece “atual”. O “novo” não é nada mais do que a atualização do mesmo. O escritor, então, é aquele que recupera as ruínas para destruir.


Caetano Veloso: “se você tem uma idéia incrível, é melhor fazer uma canção. Está provado que só é possível filosofar em alemão.” Cioran: “O que é um artista? Um homem que sabe tudo sem saber. E um filósofo? Um homem que não sabe nada mas que se dá conta.” Assim, enquanto o filósofo sistematiza o que não sabe, o artista canta o segredo.


Como disse André Gide, tudo já foi dito mas, como ninguém escuta, é preciso dizer de novo. O escritor é aquele que faz a paródia do segredo.


O escritor deve tornar público o que lhe é íntimo. (Farsa: tornar “íntimo” do leitor o que já é público).


A masculinidade, como algo que articula um poder, um discurso do poder, uma erótica e uma posição de força, se torna cada vez mais ridícula – mas todo autoritarismo o é, embora permaneça perigoso.


Para os primeiros filósofos gregos, o ponto de partida era: “eu não sei nada”. Já é hora de dizermos: “já sei demais” – ainda que continuemos na mesma.


O pornográfico fere porque expõe; o erótico agrada porque insinua; mas os cineastas – quase sempre homens – não têm a coragem de caminhar do erótico ao pornográfico: já seria arriscar demais no desvio de uma cultura da repressão.


Em muitos filmes, a mulher “liberada”: ela tem uma relação “extraconjugal”, ela é uma personagem simpática, ela cativa o público. Mas nessa “liberação”, ela é sempre o elemento passivo: o desequilíbrio, a iniciativa, vem do exterior, e seu portador sempre é um homem. Para o cinema, até a área de “liberdade sexual” da mulher faz parte de um território sob controle.


A idéia de que a razão “iluminista” fracassou ou se desviou do “projeto moderno” é falsa: as luzes atuais, que penetram nas casas de milhões de pessoas, são de uma educação extremamente eficaz.


A busca pela coerência – pela “verdade” – num texto, numa imagem ou num discurso chega a ser comovente: é como se a literatura policial finalmente tivesse invadido toda forma de falar – de maneira que o para-Doxa (Barthes) seria dizer absurdos ou calar a boca.


Quando os intelectuais e professores criticam o que chamam de “irracionalidade”, a “antiteoria”, etc., estão defendendo o seu emprego.