Mínimas

A verdadeira alegria da escrita está na possibilidade de sacrificar um capítulo inteiro por uma única frase, uma frase inteira por uma única palavra; de tudo sacrificar por um efeito artificial ou uma aceleração no vazio.
Jean Baudrillard, Cool memories, 1980-85.



Qual é a possibilidade do texto? Nenhuma/toda. Seja qual for a opção, a parede é a mesma: se trata de martelá-la até o fim — do texto.


Nunca escreverei um livro intitulado O que é a literatura. Mas se alguém tiver essa pretensão, sugiro um subtítulo: Como participar dos pactos institucionais sem cair no abismo.


Há pouco, quase ia escrevendo "obra" no lugar de "texto": (a ilusão é como uma bola que se empurra para baixo dentro d'água, e ela sempre volta) a "obra" é uma farsa do corpo.


O sensato seria só publicar estas notas depois de institucionalizado: o texto só existe se deve ser lido. Mas, nesse caso, perderia o gosto do risco e do silêncio: ler essa poética hesitante nos textos agora aceitos pela instituição é o que me faz também escrever.


Quem lê um texto que fala do buraco negro que é o sentido e se dispõe a negá-lo tem medo do que a resposta à pergunta "Então, o que é o sentido?" pode causar à integridade de suas máscaras.


O subjetivo jorra. E, para isso, as fontes têm que ser profundas. Entre os lençóis freáticos e o tecido urbano, o que sobra é um feixe sensível — que às vezes vislumbro, de relance, para voltar rapidamente a ser ausência.


Espere: não pense que o corpo é um refúgio: sua exploração erótica não escapa da dissolução do eu — apenas cristaliza uma de suas estratégias, a de inventar um lugar próprio do desejo, pensando que é possível esconder a repressão no armário.


Se o corpo é uma invenção que oculta a cultura, comer alguém parece a descoberta do desconhecido: mas quando se volta a pôr a roupa, há uma decepção cristalina: o corpo não perdura.


O poema às vezes imita o corpo. Publicá-lo implica um pacto que esgota os traços — já agônicos — de um pretenso corpo livre.


"As artes plásticas têm essa vantagem, a liberdade de não lidar com a palavra." Colhi essa frase no meu poço mental e pendurei-a como exemplo de ingenuidade em extinção.


Nada do que não é meu me fala. Nem eu.


Borges não gostava de espelhos: imaginem multiplicar o equívoco.


À pergunta: "O que o senhor procura com o seu trabalho?", Picasso respondeu: "Eu não procuro, eu encontro". Talvez eu possa dizer o mesmo, mas só se aquilo que eu digo encontrar for o próprio texto e, nesse caso, me deparo com uma interrogação pintada, uma dúvida escrita, um silêncio que esqueceu de acontecer.


O texto contemporâneo de que mais gosto é aquele cujo trajeto se parece ao de um diário íntimo: escrevo "pensando alto", um que outro lê esse texto, fecha-o e o esquece. Talvez alguém o comente como um segredo ou faça uma referência oblíqua, como se tivesse olhado sem querer alguma idéia proibida, que logo terá que abandonar. (Confissão: eu também o leio assim, com medo de que, finalmente, ele me diga algo.)


O poema é a linha-limite entre o querer dizer e o não dizer palavra.


O poema é escrito sob esse controle: tudo nele escapa, e o autor, por detrás dos sentidos, finge ignorar o que deveras ignora.


Escrever um poema: assim se assina uma infidelidade à instituição, à ficção leitor e ao próprio fantasma: o autor (Barthes).


O êxito de um poema só pode começar com a reivindicação de que ele é um fracasso.